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25/03/2008 - Evitando gafes ao redor do mundo

 

Letícia Fagundes

Mumbai, Délhi, Goa. A farmacêutica Letícia Pina já está à vontade em território indiano. Afinal, trabalhando atualmente em uma grande empresa local, com sede no Brasil, ela freqüentemente desembarca no país a negócios. Segundo ela, os costumes indianos são bem diferentes dos brasileiros, sobretudo no que diz respeito à culinária e à religião. Mas a paulistana afirma que jamais teve problemas ou viveu situações constrangedoras por causa dessas diversidades.

“A vivência que eu tive com os indianos foi tranqüila. Mas a cultura do indiano é muito aberta e receptiva.” Apesar de nunca ter passado por treinamento ou consultoria sobre a Índia, por causa da ‘bagagem’ que adquiriu durante as viagens, Letícia sabe que é fundamental conhecer um pouco da cultura da nação com que irá firmar uma parceria, fechar um contrato.

“Eu presenciei, por exemplo, os indianos recebendo na empresa um grupo de japoneses e os próprios indianos baixando o corpo, a cabeça, sem olhar nos olhos. Ou seja, os indianos, mesmo estando no seu país, se antenaram sobre alguns hábitos e costumes daqueles com quem negociariam. Isso faz diferença.”

Se não teve nenhum problema quando viajou a trabalho, quando foi morar em Melbourne, na Austrália, para estudar, ela teve uma surpresa com os orientais. “Eu experimentei uma situação difícil de choque cultural, não com os australianos, mas com os vietnamitas e chineses. Os orientais não tocam nas pessoas. Tive alguns probleminhas. Por isso, além de pesquisar sobre a cultura do país destino, tem de ver também como é a imigração para o local. Acho que é um ponto interessante para se discutir. Se você vai para um país que tem muito vietnamita, por exemplo, é legal você saber um pouco como eles são.”

Com base nas experiências, ela elaborou praticamente um modelo de conduta: “Antes de ir para qualquer país, eu sempre procuro pesquisar sobre a cultura e a história. E observo muito. Você não faz algum gesto se a pessoa não faz. Você fica meio espelho. Se a pessoa vem e te dá a mão, você dá mão (risos). É uma saída. Acho que é bom você checar muito. Conversar com alguém que já passou pelo país, pesquisar na Internet. É bom sempre se prevenir, né?”

AJUDA ESPECIALIZADA

Para a carreira de qualquer profissional, qualquer coisa que pareça um detalhe pode acabar como um desastroso tropeço. Por isso, já existem consultorias especializadas em ajudar os expatriados a não cometer gafes que poderiam arruinar uma negociação.

Foram três anos em Barcelona, na Espanha, e muito treinamento tanto para ir quanto para voltar ao Brasil. Para a secretária bilíngüe Paula Becker, mudar de país não é tão simples quanto parece. Por isso, uma consultoria pessoal e profissional é fundamental. “No início, tem a euforia de viver fora do país. Mas não tem jeito. Você entra em choque. O treinamento ajuda cerca de 80% a perceber isso e a direcionar melhor. Ou seja, você vai enfrentar o problema, mas não vai fazer dele um bicho de sete cabeças. Você vai entrar no quarto escuro de qualquer forma, mas pelo menos você tem uma lanterna, entende? Sem treinamento, você não tem nenhuma ferramenta.”

Ela fez o treinamento com a equipe de Andrea Fuks, psicóloga especializada no tema e fundadora da Global Line, empresa cuja missão é justamente facilitar a adaptação de expatriados e seus familiares, bem como de profissionais locais que lidam com pessoas de outras nacionalidades, evitando os conflitos que possam comprometer o rendimento profissional.

A idéia da consultoria nasceu durante a temporada em que morou em Chicago, nos Estados Unidos. “Essa idéia de trabalhar com diversidade cultural aconteceu há 12 anos. Na época eu estudava Psicanálise, trabalhava com clínica e achava que ia ser psicanalista. No consultório, nos Estados Unidos, eu escutava muitas queixas de diferenças culturais e a gente discutia muito, por exemplo, os porquês de os mexicanos não se adaptarem facilmente, o que acontecia com os brasileiros que por lá moravam, etc.”.

Andrea conta que quando voltou para o Brasil percebeu que havia uma carência no mercado de empresas especializadas justamente em diversidade intercultural. Ela entrou em contato com estrangeiros que trabalhavam aqui e, aos poucos, atendendo cinco famílias, notou que as esposas e filhos desses profissionais tinham muitas dificuldades de relacionamentos – o que acabava por deixar todos, inclusive o profissional expatriado, extremamente infelizes.

“Foi aí que eu comecei a focar meu trabalho em dificuldades de adaptação. É fundamental para o profissional que visa uma carreira internacional saber como ter tolerância, paciência, empatia e humildade para lidar com pessoas de hábitos e costumes diferentes dos seus. Gente não é tudo igual, e não basta falar bem o idioma ou ser competente tecnicamente para se dar bem em outro país. A forma como normalmente um brasileiro é motivado é muito diferente da forma como um americano é motivado”, diz ela.

Na Win Business, a mesma preocupação é trabalhada amplamente. Um dos consultores, o alemão Sven Dinklage, dá treinamento para profissionais que vão morar fora e também para estrangeiros que chegam para trabalhar no Brasil.

“Normalmente, faço um treinamento de dois dias. O primeiro dia independe do país destino, pois falamos sobre cultura de um modo geral. Falamos do processo de choque cultural, adaptação, etc.. Porque há euforia no início, mas depois vem a depressão. Para um casal, por exemplo, damos dicas de como apoiar um ao outro. No segundo dia é bem específico. No último final de semana, treinei um casal que vai para a Alemanha. Então, eu falei muito sobre o país, como são os alemães, como se dar bem, como se relacionar. Há dicas práticas também – até onde comprar arroz e feijão. E depois eu sempre gosto de chamar algum brasileiro que tenha morado no mesmo país que o cliente vai.”

Mesmo morando no Brasil há 10 anos, casado com uma brasileira, Sven sabe muito bem o que é não estar sob o refúgio de seu país de origem. “Eu sempre serei um alemão que mora no Brasil e tenho de me adaptar. Eu sou muito direto, o que às vezes ofende os brasileiros. Então, devo me cuidar e não ser tão alemão nesse sentido. Afinal, eu estou no país de vocês.”

Pensando no evento do ano, as Olimpíadas, que serão em Pequim, a empresa de Sven vem se especializando também em consultorias para profissionais que vão à China e a outros países orientais. “A China tem sido muito falada nos últimos anos, e agora mais especialmente por causa das Olimpíadas. Está todo mundo olhando para lá, há muita gente viajando para lá, muitas empresas conhecendo o mercado chinês. Então, é importante que quem vá conheça minimamente o país.”

Embora esteja ficando bem clara a necessidade de aprimoramento cultural para esses profissionais, Sven fala que ainda é corrente o pensamento de que todo mundo se adapta na marra. “Há empresas que acham que podem economizar nessa parte de preparar bem o profissional, mas por pequenas coisas ele pode se desgastar e não atingir o objetivo traçado. Isso vale não só para ele, mas para toda a família. Porque a gente sabe: quando a família não está satisfeita, o profissional não consegue produzir. Há muitos casos em que a família não se adapta, acaba voltando para o Brasil e isso é puro desgaste para o profissional.”

DICAS

Com a ajuda dos consultores, separamos alguns conselhos para você evitar os desconfortos:

- Evite piadas. “Porque piada toca em senso de humor, e não há nada mais cultural do que senso de humor”, diz Andrea Fuks.

- Tenha curiosidade a respeito da nova cultura.

- Faça pesquisas prévias.

- Abandone a visão de que o brasileiro já é extrovertido, flexível e multicultural e que, por isso, vai se dar bem. “Pode estar justamente aí a armadilha, porque esse jeito do brasileiro é muito bom e positivo, mas pode, às vezes, criar um desconforto em outros países.”, afirma Sven.

EXEMPLOS ESPECÍFICOS

Nos Estados Unidos:

- Mais valorizado do que um bom relacionamento interpessoal é ter resultados e metas claras. Os americanos querem saber exatamente quanto cada um ganhará com novos negócios. Menos conversa e discursos, mais números.

Na Alemanha:

- Quando tiver dúvidas, pergunte. Tenha iniciativa, porque sem ela ninguém irá te ajudar. “O alemão é distante. Ele pensa: enquanto o brasileiro não se manifestar, eu suponho que ele se vira bem. Nas empresas também é assim. Enquanto o brasileiro não disser nada, eu suponho que ele está conseguindo tocar os projetos dele. Quando você chega na Alemanha, todo mundo acha que você conhece as regras do jogo. Mas quando você se manifesta e pede ajuda, eles vão ajudar”, declara o alemão Sven.

Em países orientais:

- Não seja expansivo e nem íntimo demais. Evite contatos próximos, como beijos, abraços e até apertos de mão.

- Os povos orientais normalmente não gostam de confrontos diretos e evitam constrangimentos. Por isso, embora não digam “não” diretamente, eles dão sinais sutis de que não há concordância. “Nem sempre essa sutileza é entendida pelo ocidental, que por característica não desiste tão facilmente. Portanto, não forçar a barra é uma boa dica”, diz a consultora Ling Wang, da Win Business.

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