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11/03/2009 - Muito mais que uma mulher reconhecida, um exemplo de ser humano

 

Daniel Limas

Christina Carvalho Pinto é o maior nome feminino da história da propaganda brasileira. Já recebeu inúmeros prêmios enaltecendo sua competência na área em que atua e como empreendedora. Hoje, é presidente e sócia-proprietária do Grupo Full Jazz de Comunicação.

Sua carreira começou quando ela tinha 17 anos, quando decidiu se tornar independente financeiramente. Antes disso, desde seus nove anos, fazia literatura, onde também colecionou prêmios. Aos 26 anos já era diretora de criação e foi a primeira mulher a presidir como sócia um grupo multinacional na América Latina: o Grupo Young & Rubicam, que liderou durante 7 anos.

Ah! E fez dança e toca instrumentos! Sem dúvida, é uma artista. Uma artista que utiliza as mais variadas formas para se comunicar.

Para Christina, as artes eram a sua vocação e a publicidade era uma tentativa de utilizar sua criatividade. E em certo momento da vida, questionou sua vocação e seu papel na sociedade. Mas, felizmente, compreendeu que a sua verdadeira vocação era a comunicação.

Acompanhe esta exclusiva entrevista para o Carreira & Sucesso, que mostra mais que a história profissional impressionante desta mulher. Procuramos homenagear as mulheres com este belo exemplo profissional, mas, na verdade, o exemplo é válido principalmente para repensarmos o nosso papel na sociedade.

Conte-nos um pouco sobre a sua trajetória profissional.

Eu sempre disse que minha trajetória no setor de comunicações começou por acaso. Sou formada em música e minha grande paixão é a literatura. Tenho uma paixão imensa pela palavra. Comecei a escrever literatura com nove anos e ganhei vários prêmios. Com 17 anos tentei um estágio como redatora numa agência de publicidade. Era um forma de exercer minha criatividade.

Até que comecei a ganhar prêmios e entrei numa espécie de crise existencial por ter me destacado numa profissão que eu achava não ter nada a ver com minha vocação. Durante alguns anos eu me questionei muito se eu deveria continuar no setor publicitário. Nos últimos quatro anos, minha reflexão passou por mudanças radicais. E isso eu nunca havia mencionado para qualquer jornalista. A idéia que eu tinha era que eu fui parar em propaganda por acaso. Mas não é verdade. Meu dom é a comunicação. Seja por meio da literatura, da música, da dança, piano, violão ou publicidade.

Além disso, entendi que por eu ter uma natureza de artista, eu jamais poderia realmente cumprir minha missão neste planeta sem ter passado por todos os aspectos mais práticos e críticos do universo da comunicação. Eu tinha que sair do abstrato e da transcendência e trabalhar com gestão e com os empresários. Para quem tem o dom da comunicação é fundamental aprender a fazer a gestão do ser humano. Essa é a arte maior. Você precisa tentar entender como usar esse dom com todos os seres humanos. E o ambiente corporativo é maravilhoso para esse entendimento.

Tive que aprender tudo isso para entender o meu papel como comunicadora nos tempos difíceis que o planeta e a sociedade estão passando. Todos nós estamos sendo chamados para sermos atores e atuarmos a nova história. Uma história mais justa, menos devastadora e menos devoradora da energia e do tempo do ser humano. E é aí que está a grande importância dos veículos de comunicação.

Qual a sua opinião sobre a ética na publicidade?

Quando ela acontece de ser antiética, ela não é assim assumidamente e por maldade. Vale ressaltar que ela tem sido antiética em muitos casos. Isso acontece mais por inconsciência dos envolvidos com o processo maior, que é o de influenciar as mentes humanas.

Há uns 15 ou 20 anos, nunca tinha me passado essa idéia pela cabeça. Mas entendi que, ao ter me especializado em criação eu tinha me especializado em criar embalagens para alguma coisa. O publicitário não tem consciência de que ele precisa refletir sobre o porquê da criação de embalagens, e das ideias que chegam as nossas casas.

Isso acontece porque os profissionais mais novos acabam se entusiasmando mais com a qualidade e com a influência de uma boa ideia. No entanto, é deixado de lado o principal. A ideia criativa serve para vestir o conteúdo daquela marca. Se o conteúdo for nocivo para o ser humano, o criativo não questiona isso. Quero ressaltar que existem muitos publicitários extremamente conscientes.

Você já chegou a recusar uma proposta de trabalho ao longo da sua carreira?

Se eu tivesse aceitado todas as oportunidades de negócio ao longo desses 12 anos de Full Jazz, a empresa seria uma mega agência. As pessoas só podem te respeitar pelo que você é e não pelo que você diz. Não adianta dar uma entrevista para um jornalista dizendo um monte de coisas e ao passar por um exame mais agudo você é reprovado. Uma das nossas filosofias é ter um respeito profundo por nossos clientes. Qualquer produto que seja um pouco perigoso não vamos querer divulgar.

Os publicitários têm de ter coragem de dialogar com o empresário para que ele repense seu papel. O problema é que não existe nenhum produto que não seja nocivo, assim como não existe nenhuma empresa nota 10. O importante é nos relacionarmos com empresas que procuram ser mais éticas e mais sustentáveis.

Qual a sua recomendação para que uma pessoa que trabalha com a comunicação seja sempre criativa?

A coisa mais importante para isso é que ela se mantenha simples. As ideias mais brilhantes são simples. A cultura ocidental se distanciou da simplicidade. Passamos o dia inteiro pensando em lixo. Temos de criar técnicas para discernirmos quais pensamentos são úteis. Uma dessas ferramentas é a meditação. É preciso não ser assaltado por pensamentos que você não sabe de onde vêm.

Outra sugestão é ser um eterno curioso, pois isso ajuda a desenvolver humildade e coragem. Quando eu acho que já sei tudo, eu passo a não ter mais curiosidade. Na verdade, você quer que os outros tenham curiosidade por você. Você percebe que o mundo está lotado de conhecimento, muitos dos quais não vamos conseguir conhecer. Se eu estou muito ensimesmada, não vou ter coragem nem humildade de partir em busca de coisas novas.

A Full Jazz foi concebida com inspiração numa banda de jazz. Conte-nos um pouco quais são essas características?

A banda de jazz possui uma infraestrutura incrivelmente flexível. Eu não consigo entender qualquer insight advindo de ideias preconcebidas e rígidas. A metáfora da banda de jazz é ser flexível e dar oportunidade de criação para todos os integrantes. Nas organizações atuais, todos trabalham engessados e isso tira a liberdade de criar. Essa cultura comprime, aleija e incapacita nossa possibilidade de criar e gerar o novo. Não há uma hierarquia na banda de jazz e todos podem criar.

Como você enxerga seu papel daqui pra frente?

Já passei por várias fases, como eu já contei na entrevista: cair por acaso na publicidade, me fascinar com o reconhecimento que o mercado me concedeu, me desencantar e finalmente, me conciliar com a minha vocação e trajetória. No momento, estou me dedicando à criação e à produção de novos produtos midiáticos não envolvidos com propaganda. Todos dizem que estão cansados de violência e vulgaridade na mídia. Então, nós criativos, temos o papel de criar algo novo.

Um desses projetos é Portal Mercado Ético, que é uma plataforma multimídia, para pessoas interessadas no tema da sustentabilidade. Aproveito para fazer uma homenagem para uma grande mulher: Hazel Henderson, um dos cérebros mais brilhantes da história contemporânea. Ela é uma economista evolucionária que propõem novas modelagens macroeconômicas e que criou este portal.

Também conduzo semanalmente o programa Mercado Ético, no canal Ideal da TVA, em que dialogo com a vanguarda do pensamento econômico, social e corporativo. Na Rádio CBN, apresento o Momento Mercado Ético, dentro do programa CBN Noite Total. Além de uma série de outros projetos, ainda faço no Portal Climatempo o programa Novos Tempos, que traz novas ideias, tecnologias, empreendedores e conceitos para nos inspirar.

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