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22/02/2008 - USO DA CRASE

 

* Virgínia Maria Antunes de Jesus

O uso da crase gera muitas dúvidas:

  • Quando usar a crase?
  • Qual a diferença entre acento grave e crase?
  • O que é “a craseado”?

    Quando entendemos sua razão de ser e seu funcionamento, tudo se torna muito simples!

    Crase vem do grego “krasis”, que significa “mistura|fusão|junção”.

    Para marcarmos a fusão de dois “as”, colocamos o acento grave indicativo de crase:
    Vou à escola. (Vou a + a escola)

    Os artigos determinam, definem os nomes femininos. Assim, parte de nossos erros já está solucionada:

    É preciso saber reconhecer os casos de junção de vogais que pedem acento grave para marcar a crase. Como saber?

    Para verificar se sua construção está correta, troque a palavra feminina por outra masculina que tenha o mesmo sentido e veja se aparece a + o = ao (preposição mais artigo). Se o resultado for ao, o correspondente feminino será à (a + a = à). Observe este processo de substituição nos versos seguintes:

    DETALHES
    (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

    (…)
    Detalhes tão pequenos
    De nós dois
    São coisas muito grandes
    Para esquecer
    E a toda hora vão -> E a todo momento vão
    (Não resulta em “ao”, portanto o correspondente feminino é “a”)
    Estar presentes
    Você vai ver…

    Se alguém tocar
    Seu corpo como eu
    Não diga nada
    Não vá dizer
    Meu nome sem querer
    À pessoa errada… -> Ao cidadão errado…
    (Resultou em “ao”, portanto o correspondente feminino é “à”)
    (…)

    Exemplos do processo de substituição:

    Convoquei as funcionárias para a reunião.
    Convoquei os funcionários para o encontro. (Não há junção de vogais.)
    Pedi às funcionárias para virem à reunião.
    Pedi aos funcionários para virem ao encontro. (junção de vogais)
    Fui à loja comprar um presente.
    Fui ao mercado comprar um presente. (junção de vogais)
    Ela gosta de fazer as coisas à maneira antiga.
    Ela gosta de fazer os trabalhos ao modo dela.

    Mais um exemplo do processo de substituição:

    E VAMOS À LUTA
    (Emílio Santiago/Gonzaguinha)

    Eu acredito é na rapaziada
    Que segue em frente e segura o rojão
    Eu ponho fé é na fé da moçada
    Que não foge da fera e enfrenta o leão
    Eu vou à luta com essa juventude -> Eu vou ao combate…
    (junção de a+o)
    Que não corre da raia a troco de nada -> Que não corre da raia a troco de nada
    (palavra masculina)
    Eu vou no bloco dessa mocidade
    Que não tá na saudade e constrói
    A manhã desejada (…) -> O dia desejado

    Não esqueça:

    “Comprar a prazo é fácil.”
    (Prazo é palavra masculina: não há crase.)

    “Estava a correr na praia.”
    (Correr é verbo: não há crase.)

    “Estava a comprar à vista.”
    (Comprar é verbo: não há crase. Vista é palavra feminina: há crase).

    Portanto, crase é a junção de duas vogais iguais. ACENTO GRAVE é o sinal que marca esta junção.

    Leia os versos originais de Cartola e a correspondente verificação do uso da crase:

    AS ROSAS NÃO FALAM
    (Cartola)

    (…)
    Volto ao jardim -> Volto à sala
    Com a certeza que devo chorar
    Pois bem sei que não queres voltar
    Para mim

    Queixo-me às rosas, mas que bobagem -> Queixo-me aos jasmins, mas que bobagem
    As rosas não falam -> Os jasmins não falam
    Simplesmente as rosas exalam
    O perfume que roubam de ti, ai

    Casos particulares:

    1. Com o pronome aquele e suas variações também pode ocorrer uso de acento indicativo de crase:

  • Não fui àquela reunião. (Não fui a aquela reunião.)
  • Não fui àquele encontro. (Não fui a aquele encontro.)
  • Veja aquele menino. (não há crase)
  • Veja aquela menina.
  • Perguntei aquilo ao meu professor
  • O problema era anterior àquilo. (anterior a aquilo)

    2. Nos casos de preposição a que segue verbos de destino (ir, dirigir-se), troque o verbo por um que indique procedência (vir, chegar). Se aparecer “d + a”, é sinal de que deve haver acento grave:

  • Venho da Itália. (aparece o artigo “a”)
  • Vou à Itália. (com acento grave)
  • Cheguei de Campinas. (não aparece o artigo “a”)
  • Dirijo-me a Campinas. (sem acento grave)

    3. Nas expressões subentendidas à moda de, à maneira de:

  • Pedimos frango à passarinho (à maneira de passarinho)
  • Vestimos à gaúcha (à maneira gaúcha)
  • Usamos trajes à Luiz XV (à moda Luiz XV)

    4. Nas locuções femininas de meio ou instrumento:

  • À vela
  • À mão
  • À bala
    Prefira crase quando for preciso evitar ambigüidade:
    Receber à bala (receber com tiros) / receber a bala (acolher a bala)

    Outros exemplos de uso de crase:

  • Irei à tarde.
  • Vire à esquerda.
  • O encontro é à meia-noite.
  • Estarei lá às duas horas.
  • Prefiro tudo às claras.
  • Estou às ordens.
  • Estava engordando à medida que comia.

    Erros comuns:

    À partir de agora, tudo será diferente. (errado)
    A partir de agora, tudo será diferente. (certo: não há crase, “partir” é verbo)
    Das 9h as 10 horas. (errado)
    Das 9h às 10 horas. (certo: deve haver crase, pois “horas” é feminino.)
    De segunda à sexta (errado)
    De segunda a sexta (certo: troque “sexta”por “sábado”, veja como não resulta em “ao”.)

    ATENÇÃO:
    Crase e acento são conceitos distintos. A crase é junção, indicada com acento grave (`).

    Não se pode dizer: “- Este a tem crase?” ou “- Coloco crase nesse a?”

    O correto é: “- Este a tem acento grave?” ou “- Este a é craseado?”

    RECAPITULANDO

    * Virgínia Maria Antunes de Jesus, Rosana Morais Weg e Maria Salete Prado Soares são diretoras, professoras universitárias e consultoras empresariais da DSignos – Soluções e Desenvolvimento em Linguagens, empresa que fornece soluções na área de Comunicação em Português e outras línguas

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