Se você acha que o trabalho do músico é fácil, e que eles levam a vida numa flauta, está enganado. Muitas pessoas têm a falsa idéia que eles “só” fazem shows, vivem viajando, ganham rios de dinheiro. E o que dizer daqueles músicos que “só” trabalham à noite, nos bares e casas de show? Outras pessoas ainda acreditam que ser músico é um dom e que não foram necessários anos de estudo. Este conceito não condiz com a realidade destes profissionais, que para se aprimorar, fazem ensaios diários, e na grande maioria dos casos, acabam fazendo milagre para sobreviver.
Essa cultura denota graves problemas no mercado com o trato com o profissional. “Em parte, isso ocorre porque o resultado do trabalho de um músico é lazer para quem ouve. Além disso, ao contrário das outras profissões, o músico tem dificuldade para trabalhar em equipe. O músico aprendeu a ensaiar sozinho, durante horas”, explica Déborah Cheyne, presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro e violista da Orquestra Sinfônica Brasileira.
E o mercado é mesmo um grande desafio para estes profissionais. “A falta de vínculo profissional é muito grande. Para o músico da noite, por exemplo, o trabalho existe conforme o estilo musical da moda. E nem todos estão preparados para tocar tudo”, conta Déborah. Ela cita o exemplo da Bossa Nova, que só voltou à moda no Rio de Janeiro porque está comemorando 50 anos. “Antes, era só pra gringo ver.”
Para os que almejam uma carreira um pouco estável e sólida, a solução é buscar uma oportunidade como professor nas escolas e nas universidades de música ou atuar em orquestras. Com menos formalidade, o território é bastante vasto para o desenvolvimento do trabalho de um músico competente e preparado. “Ele pode atuar em bandas ou como instrumentista, regente, compositor e arranjador em orquestras ou mesmo fazendo entretenimento. Pode desenvolver-se na propaganda ou realizar trilhas sonoras para cinema, teatro, TV, internet e também pode aproximar a música das áreas de medicina, psicologia e assistência social”, enumera Aída Machado, pianista e coordenadora pedagógica da Universidade Livre da Música e da Faculdade Cantareira.
E como um músico deve estar preparado para o mercado profissional? “A disciplina, a dedicação, a concentração e a disponibilidade para estudar todos os dias são fundamentais para o desenvolvimento de um bom trabalho musical”, explica a professora. “É absolutamente enganoso o pensamento de que fazer arte depende somente do talento e aptidão. Isso é relevante, mas é apenas o primeiro impulso. Sem o envolvimento total e investimento pessoal, nada acontecerá realmente”, explica Aída.
E esse envolvimento tem acontecido cada vez mais cedo. “Atualmente, a formação de um músico começa quando criança. Há muitas começando aos cinco anos. Eu comecei tarde, aos 16”, comenta Déborah. Outra característica marcante desta profissão é que na grande maioria dos casos, o aluno não entra na universidade de música sem ser músico. Além disso, é preciso investir na formação musical, na compra e na manutenção do instrumento musical. É preciso investir em cultura geral, ir a concertos e shows e consumir muita música e literatura. Mas não se preocupe com o lado financeiro: “há várias alternativas para ter a maior parte de tudo isso sem um grande investimento de dinheiro”, explica Aída.
Brasil
“No exterior, a música brasileira é identificável na hora. Ela é sentida como uma música complexa, rica em harmonia e melodia, por mais simples que seja. Isso se deve, certamente, à facilidade como o povo se mistura. Temos facilidade para lidar com idéias diferentes”, orgulha-se Déborah. Para a violista, o mercado brasileiro é muito diferente dos demais países. “Comparando com os Estados Unidos, o Brasil possui pelo menos uma centena a mais de variedades rítmicas diferentes. Isso é superpositivo, mas há muita produção para pouco mercado. Ainda existe o jabá – prática usada para impor a mídia a divulgar certas canções - e os selos das grandes indústrias, que massacram a produção nacional”, indica Déborah.
Tendências
Além dos estudos começarem cada vez mais cedo, o mercado mais exigente e restrito tem solicitado músicos com formação em vários instrumentos, os chamados multi-instrumentistas, o que segundo Déborah exige que “o profissional se dedique ainda mais aos estudos e ensaios”. Para ela o pior ainda é ter que ouvir das pessoas ‘além deste instrumento, você toca qual outro? A maioria acha que um instrumento é parecido com o outro.’
Outra transformação pela qual este mercado tem passado se deve à velocidade do desenvolvimento da tecnologia. Antigamente, um músico precisava de um produtor, de um divulgador e de um estúdio. “Hoje, ele pode fazer tudo sozinho. Com um bom computador e alguns programas específicos, ele mesmo grava seu disco e depois vende pela internet”, explica Déborah. Mas isso causa uma série de problemas: “é um trabalho solitário e sem a opinião da sociedade. É um trabalho para uma tribo. Além de ser um trabalho informal.”
E lutar contra a informalidade é uma tarefa árdua, pois o músico não enxerga a importância de se unir corporativamente. “É muito difícil aproximar o músico da questão trabalhista. É complicado fazê-lo entender que ele faz parte do PIB e arrecada e recolhe impostos. Conclusão: muitos, quando chegam à velhice, ficam sem recursos financeiros, pois nunca recolheram, sequer, a previdência social.”