Há oportunidade para os afastados do mercado? - - 351ª Edição
 

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11 de julho de 2008
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Mercado
HÁ OPORTUNIDADE PARA OS AFASTADOS DO MERCADO?


Letícia Fagundes

Aos 28 anos, Andréa Ferraz resolveu dar uma parada na vida profissional. Trabalhava no mercado financeiro há oito anos e tinha experiência consolidada nos bancos Noroeste e Bamerindus (ambos já extintos). A decisão surgiu quando engravidou do primeiro filho e baseava-se na vontade em se dedicar integralmente à família.

"Às vezes você tem de fazer opções sérias. Eu não quis terceirizar a formação dos meus filhos. Eu trabalhava em período integral e não conseguiria cuidar das crianças. Eu optei por ser mãe."

A idéia era ficar cinco anos afastada. Um tempo que ela considerava suficiente para cuidar das crianças – teve três filhos – sem ficar tão defasada profissionalmente. Ledo engano. Quando tentou voltar, percebeu as dificuldades que enfrentaria e resolveu se aprimorar. "A pós-graduação surgiu porque eu já estava ficando ansiosa. A faculdade vai ficando obsoleta, a tecnologia avança, os processos mudam."

Formada em Administração, Andréa fez pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos e afirma nunca ter se afastado completamente da realidade empresarial, uma vez que também ajudava o marido no escritório de advocacia – principalmente na área de recrutamento – e lia muito. Mas nada disso a levou sequer a entrevistas de emprego.

Hoje, 13 anos depois da decisão e com 40 anos de idade, ela trabalha como voluntária em Campinas, interior de São Paulo, coordenando grupos de teatro amador. "É bem gostoso, porque você mexe com emoções.". Embora, desanimada, ainda gostaria muito de voltar ao mercado.

Situação parecida vive Noboru Tokimatsu, 56 anos. Casado e com duas filhas adultas, o administrador viu sua vida praticamente desabar ao ser demitido da empresa onde estava havia 15 anos!

Com experiência profissional bastante consolidada na Varig e na EMTU - Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, ele passou a conviver com a pouca tolerância das empresas em relação a um profissional com mais de 50 anos (a demissão aconteceu em 2004) e que está fora do mercado por períodos mais prolongados. "Eu mandei muitos currículos, mas não obtive resposta nenhuma", diz ele.

O jeito foi pensar em rotas alternativas, como prestar concurso público. Como ainda não conseguiu ser aprovado, dedicou parte do seu tempo a algo que gostasse bastante de fazer, para se manter ocupado. "Eu estou fazendo artesanato em madeira. É um serviço bastante gratificante. Então, estou exercendo esta atividade autônoma, porque ficar parado, desempregado, dá muito baixo astral."

Depois de quatro anos da demissão e afastado do mundo corporativo, ele garante que a esperança não é das maiores, mas disposição ainda existe. "A vontade de voltar sempre existe. Eu gostaria muito de arranjar um emprego. Para mim seria melhor do que ficar batalhando no meu negócio, que muitas vezes é arriscado."


NECESSIDADE DE MUDANÇA

Os exemplos de Andréa e Noboru se juntam aos de milhares de pessoas que, por diversos motivos, se desligam do mercado e depois não conseguem voltar. Uma demissão inesperada, a necessidade de dedicação integral para os estudos - como nos casos de concursos públicos -, o desejo de ser mãe, uma expatriação para acompanhar o marido ou a mulher.

Muita gente decide (ou é levado a) parar ou dar um intervalo na vida profissional. Mas todos eles se dão conta de que a realidade é cruel para uma possível volta.

Para Andréa, o desânimo e as críticas ao sistema são inevitáveis. "Eu me pergunto: não existe espaço para a honestidade, para a disposição de um recomeço, para a vontade de aprender? Vejo uma necessidade urgente de mudança. É importante o dinamismo do jovem, sua sede de viver, porém é importante também a sensatez, o conhecimento, a experiência de vida e a frieza em certas ações, percebidas normalmente em profissionais mais velhos."

Ela garante que por muito tempo batalhou por oportunidades, inclusive sem pensar em salário ou posições. Mas que invariavelmente empresas e recrutadores exigiam experiências recentes e nem davam retorno às tentativas dela. "Eu nunca menti e nem omiti minha formação e nem meu distanciamento do mercado no meu currículo. Mas a primeira coisa que perguntam é sobre experiência recente. Só que às vezes a experiência exigida pelas empresas não será usada. Então, por que não trabalhar de modo diferente com esse profissional que está afastado?"

Noboru ainda tem o obstáculo da idade. "Tinha mais de 50 anos e trabalhava há muitos anos na mesma empresa. Eu fiquei defasado do mercado. E quando fui demitido, vi que a única forma de voltar seria concurso público", conta ele, que afirma ter deixado de acreditar nos espaços para esses "rejeitados" pelo mercado. "As empresas querem estagiário para pagar pouco e baixar os custos. A dificuldade para profissionais experientes, e ainda mais afastados, é muito grande. Não há oportunidade."

Andréa conclui: "É claro que experiências antigas se tornam obsoletas em muitos casos, porém responsabilidade, maturidade e discernimento só se consegue através do tempo. É inacreditável como os setores evoluem, profissões novas vão surgindo e a maneira de escolher um profissional continua praticamente a mesma. Eu acho que você tem de ter uma chance. Quando você tem essa grande pausa, você consegue observar de longe coisas que as pessoas que estão dentro do mercado não conseguem, justamente por estarem tão dentro do mercado. Cada um tem uma percepção diferente."


DICAS DOS ESPECIALISTAS

A pergunta que não quer calar é: é possível ficar afastado durante anos e depois voltar?

Para Fernanda Figueiredo, coordenadora de RH da Catho Online, o importante é se manter ativo e, tendo oportunidade, contar com o acompanhamento de um especialista que possa manter o profissional mais ligado às tendências e exigências do mercado de trabalho. "Se eu continuo me mantendo ativa, fazendo cursos, com certeza eu serei mais facilmente absorvida pelas empresas. O importante é ter planejamento. Você pode parar e se afastar, mas isso tem de ser gerenciado, nem que seja com a ajuda de um coach, um profissional especializado."

Psicóloga de formação, Fernanda considera que uma ajuda especializada é indicada até mesmo para manter a auto-estima alta e sem traumas. "Existem ferramentas utilizadas por consultorias para reestruturar esses profissionais. Eles identificam potenciais e dão total suporte para que essas pessoas se sintam fortes."

Para o coach Renato Ricci, tudo é uma questão de estratégia de recolocação. "O primeiro passo é entender que existem chances. Segundo é montar um plano com boas respostas para as perguntas difíceis. Por exemplo: uma pessoa que tentou partir para um negócio próprio não bem-sucedido deve ter bons argumentos para voltar ao mercado. Já outra que ficou anos procurando colocação sem sucesso terá outro tipo de resposta", orienta.

Autor de dez livros, entre eles "Perspectivas do Agora: Estratégias Positivas para Desenvolvimento e Transição de Carreira" ( Editora Qualitec), Ricci afirma que simplesmente ficar reclamando da vida não vai ajudar em nada. "Cada caso é um caso. O importante é responder o que o recrutador quer ouvir. Ficar se lamentando ou dando desculpas esfarrapadas pode não ser a melhor saída. Preparar uma estratégia antes da entrevista é fundamental."

Ilana Lissker, sócia da Search Consultoria em Recursos Humanos, empresa especializada em seleção e recrutamento de executivos, destaca algumas preocupações que o profissional que busca o retorno à ativa deve ter. "Quando a pessoa está no mercado, ela tem um poder de negociação muito maior do que de quem está fora. E se não está, essa pessoa não está sendo vista no mercado, pelos headhunters, pelas empresas. Então, ela tem de fazer um trabalho muito maior de networking para tentar voltar. É muito difícil mesmo essa pessoa mandar um currículo para uma consultoria ou para uma empresa e ser chamada."

Mas ela, que também passou por situação semelhante - pois ficou um ano fora do mercado cuidando do filho -, afirma que a tão desejada inserção pode ser alcançada. "Acho que é possível, principalmente se a pessoa já tinha uma carreira consolidada previamente. Mas quanto maior o tempo da parada, mais difícil de voltar. Mas que fique claro: ela não consegue voltar nem na mesma posição que ela tinha e nem com o salário esperado."


DICAS PRÁTICAS

Ilana explica que o currículo de um profissional que está há anos fora do mercado deve trazer justificativas do afastamento e destacar informações sobre os aprimoramentos alcançados nesse intervalo. "Vale a pena colocar no currículo que esteve fora do mercado se dedicando a projetos pessoais ou o motivo que for, mas sempre colocando que fez cursos ou, por exemplo, que foi viajar e pegou fluência em algum idioma", recomenda ela, que aponta mais três dicas básicas:

  • Procure conhecer o maior número possível de pessoas;
  • Retome os contatos dos profissionais com quem você trabalhou no passado;
  • Não tenha expectativas sobre posição e salário.

    Ricci, por sua vez, destaca que é necessário, mesmo estando fora do mercado, ficar atento às tendências, exigências e acontecimentos, seja por meio de leituras ou estudos. "Atualização, independente de formação, é essencial sempre. Existem áreas que em cinco anos toda dinâmica foi alterada. Portanto, faz-se necessário ficar atento ao movimento do mercado."

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