Multidisciplinaridade e a era digital – Conheça Martha Gabriel

Muito se discute sobre profissionais multidisciplinares, uma necessidade mais do que exigida no mercado de trabalho atual. Porém, aquela versão de profissional engessado em moldes e não em afinidades de conhecimento faz a grande maioria pensar que tudo deve ser feito como rotina.

A verdade é que para este intercâmbio de áreas e informações atingirem sucesso, deve existir muita dedicação, estudo e amor ao que se faz.

Marta Gabriel, diretora de tecnologia da New Media Developers, é um exemplo claro sobre o uso do conhecimento em favor dos negócios e de estudos acadêmicos. Ela  é coordenadora e professora do curso de MBA em Marketing da HSM Educação e atua como palestrante internacional ministrando apresentações nos Estados Unidos, Europa e Ásia.

Premiada três vezes como melhor palestrante em congressos nos Estados Unidos, é autora de 4 livros, inclusive o best seller “Marketing na Era Digital“. Martha conversou com o Carreira & Sucesso sobre sua trajetória de carreira.

Boa leitura!

Você é formada em engenharia, porém, tem forte presença nas áreas de marketing, tecnologia e arte. Conte a trajetória de sua carreira e sobre esse interesse multidisciplinar.

Realmente tenho uma formação multidisciplinar, mas creio que isso é um reflexo da minha personalidade e educação – sempre tive interesses em muitas áreas e sempre adorei estudar. Some-se a isso o fato de que o meu pai era uma pessoa muito culta e que tinha o dom de incentivar a exploração do mundo – ele me contagiou desde cedo com a sua fascinação pelo conhecimento.

Essa combinação é um imã para a multidisciplinaridade. Aos 6 anos de idade, eu arriscava notas musicais em uma pianola (órgão eletrônico pequeno); aos 11 anos, montei um rádio usando os componentes de kit de eletrônica; aos 16 anos comprei um kit caseiro para revelação e ampliação de fotografia em preto e branco – ouço música clássica desde o berço. Além da escola em si, também pratiquei vários esportes – competia tênis e natação, mas também me aventurava na ginástica olímpica, vôlei, basquete e tênis de mesa. Estudei 7 anos de piano, mas também brincava com flauta e violão.

Minha primeira formação é em engenharia. No entanto, conforme minha carreira foi se desenvolvendo, eu fui procurando ampliar os meus conhecimentos e capacidades em outras áreas, conforme elas se tornavam necessárias para o meu crescimento profissional. A primeira pós-graduação foi em marketing – como engenheira e empresária, entender o mercado e suas dinâmicas era essencial.

Depois, conforme as tecnologias computacionais foram se popularizando e se tornando acessíveis – impressoras laser, impressoras jato de tinta, redes computacionais, internet, entre outros, para poder usar e criar conteúdos usando essa gama poderosa de tecnologias senti a necessidade de fazer uma pós-graduação em Design. Até então, eu tinha uma capacitação forte em tecnologia, o que facilitava na programação computacional e utilização do aparato tecnológico, mas que não era suficiente para comunicação e criação de conteúdos poderosos que elas passaram a possibilitar. Assim, a formação em design ampliou e complementou minhas habilidades.

Durante a pós em design, comecei a participar de congressos científicos e receber convites para dar aulas em universidade. Ao mesmo tempo, conheci muitos professores, pesquisadores e artistas de novas mídias. Isso foi o gatilho para eu fazer o meu mestrado em artes, e depois, o doutorado também. A formação artística acrescentou na minha formação a ‘cola’ que linka todas as outras áreas.

Existem temas interessantes que você aborda, um deles é o cibridismo. O que é este conceito e qual é seu impacto?

Cibridismo é o estado de híbrido composto de material e ciberespaço. Há dez anos éramos predominantemente offline, e, portanto, éramos seres apenas compostos do nosso material biológico. Nos últimos anos, começamos a nos tornar gradativamente mais online, simultaneamente ao nosso estado offline.

Até recentemente existia uma separação física necessária entre ON e OFF line, pois, para transitarmos entre o online e o offline, precisávamos usar um equipamento fixo que nos levava a esse estado. Essa barreira entre ON e OFF line foi se dissolvendo aos poucos conforme a hiperconexão, a proliferação de plataformas e as tecnologias móveis se popularizavam no cenário social, e, aos poucos, o cibridismo se tornou realidade.

Portanto, não somos mais ON ou OFF line — somos ON e OFF ao mesmo tempo, simbioticamente, formando um ser maior que o nosso corpo/cérebro biológico, nos expandindo para todo tipo de dispositivo e abrangendo outras mentes e corpos. Somos cíbridos, e vai se tornar cada vez mais difícil sermos apenas ON ou apenas OFF line — nossa Todos direitos reservados a Martha Gabrielessência quer circular livremente, sem rótulos ou limitações físicas, para obter uma experiência melhor, uma vida melhor, seja ela ON ou OFF line.

Não precisamos mais sair de onde estamos para acessar uma máquina que nos leve para o online. Hoje, e cada vez mais, o online está com as pessoas onde quer que estejam (por meio dos dispositivos móveis que estão se incorporando cada vez mais ao nosso corpo) e, em breve, estará conectado direto ao cérebro humano.

Assim, todas as áreas do conhecimento tendem a ser cada vez mais contaminadas pela integração entre ON e OFF line, e isso amplia as possibilidades de interação e geração de fluxos de informação e, portanto, afeta nossa percepção e atuação no mundo.

Você fala sobre ócio criativo. O que isto significa para você?

Ócio criativo é um termo criado por Domenico de Masi há mais de uma década e representa a ideia de que trabalho, estudo e lazer são coisas inseparáveis em nossas vidas. No mundo ocidental, o termo ‘ócio’ foi ganhando um peso negativo conforme a sociedade industrial foi se formando e separando as atividades do nosso cotidiano. No entanto, os antigos gregos valorizavam o ócio, como uma atividade necessária para a criação – em outras palavras, o ócio é importante para a criação e produção, tanto quanto o trabalho.

Com a disseminação da internet, gradativamente foram se dissolvendo as barreiras que separavam lazer, estudo e trabalho e isso começou a favorecer o ócio criativo. Em 2001 eu já trabalhava com internet há 5 anos e sentia esse fluxo na minha vida de uma forma muito forte. No entanto, naquela época, estar conectado constantemente era exceção e não regra. Assim, eu me sentia um pouco fora de contexto em relação aos outros, mas estava adorando a transformação que me permitia extrair o máximo dessas conexões entre trabalho, lazer e estudo.

Foi quando eu li o livro “Ócio Criativo” e me identifiquei totalmente. Então, resolvi fazer o site ociocriativo.com.br publicando coisas que para mim são ócio criativo – frases, quebra-cabeças, desafios, ilusão de ótica. Coleciono frases e esse tipo de conteúdo desde criança e essa foi uma forma de eu compartilhar com as pessoas algo que sempre me motivou. Quase uma década depois, criei também os perfis do ócio criativo no Twitter, que publicam 3 frases por dia: @Ocio_Criativo e @Creativeidlenes (frases em inglês).

Você é autora de livros best sellers e essa semana você entregou um novo título. Conte-nos sobre essa nova obra.

Estou muito feliz com esse novo livro, que é um projeto de 2 anos! O tema é educação, focando nos impactos, transformações e oportunidades que as tecnologias e mídias digitais trazem na aprendizagem, na escola, no professor. A educação e o amor, em minha opinião são as principais ferramentas para transformar o mundo.

Estamos vivendo uma revolução digital, que tem transformado todos os aspectos da vida humana, e, no entanto, a escola atual quase não mudou se comparada com os séculos anteriores. Acredito que todos envolvidos no processo de educação e aprendizagem precisam se educar para poderem atuar no cenário digital.

Estamos passando da Era da Informação para a Era da Inovação – em que tudo muda muito rapidamente. O novo contexto requer habilidades criativas e inovadoras – tanto de educadores, quanto de estudantes — para solucionar problemas inéditos.  No Brasil, fala-se muito de inclusão digital, mas quase não se ouve falar sobre educação digital. Incluir sem educar antes pode ser perigoso, pois se dá poder tecnológico às pessoas antes que elas saibam como utilizá-lo. Por outro lado, se educam antes, as pessoas sabem como usar e extrair o melhor das tecnologias. Assim, a educação digital é essencial.

O livro está dividido em duas partes – a primeira trata da revolução digital e a segunda, da educação na era digital – e será lançado pela Saraiva, ainda no 1o semestre.

Como acadêmica e adepta de tecnologias, o que você mais identifica de atraso dentro das organizações?

Penso que o maior atraso nas organizações – empresas, instituições de ensino, governos – é justamente a educação digital, o letramento digital. Hoje, o hardware de acesso à internet tem barateado bastante e vai se tornando relativamente acessível às pessoas de todas as classes sociais e idades. O BYOD (Bring Your Own Device) é um fenômeno mundial em que as pessoas levam os seus dispositivos móveis para o trabalho e escola e preferem usá-los ao invés dos equipamentos “oficiais” das organizações. Isso pode trazer inúmeros problemas ou oportunidades.

Se os colaboradores da organização não sabem como usar adequadamente esses equipamentos, eles sofrem de falta de produtividade, dispersão, segurança e até mesmo vícios. Se eles são educados pelas organizações, conhecendo riscos e oportunidades, procedimentos éticos, políticas de uso, etc., eles podem se tornar mais produtivos e integrados com o mundo.

Para saber atuar nas redes sociais, por exemplo, é preciso saber como funcionam os diversos ambientes de redes sociais – Foursquare traz riscos e oportunidades distintas do Facebook ou Twitter. O ambiente se tornou muito mais amplo e complexo e, lidar com a complexidade crescente, requer habilidades mais sofisticadas. E isso depende da educação – formal ou não.

Como o ambiente hoje muda muito rapidamente e o tempo todo, as pessoas precisam continuar aprendendo e inovando sempre. Dessa forma, as universidades corporativas estão se tornando uma tendência para solucionar o problema da educação contínua nas empresas. A educação informal – social learning – também tem crescido e alavancado o processo.

O que o marketing digital representa de fundamental para as empresas?

As tecnologias digitais têm se proliferado de uma forma tão rápida e extensa que, hoje, virtualmente todas as áreas da vida humana estão se misturando com o digital – lazer, entretenimento, relacionamentos, trabalho, etc. Isso transforma significantemente pelo menos duas dimensões do marketing: o ambiente e o público-alvo. O ambiente digital tem ganhado cada vez mais importância e o público-alvo tem mudado completa e rapidamente o seu comportamento em função da utilização das tecnologias digitais.

O mundo offline está cada vez mais conectado com o online – cada um deles fica limitado e manco sem o outro. Dessa forma, se as empresas não  considerarem e incluírem o digital em suas estratégias de marketing estão destinadas a fracassarem rapidamente.

É importante ressaltar aqui que o ambiente digital de marketing interage e complementa o ambiente tradicional – as pessoas circulam no mundo offline e utilizam mídias tradicionais também. As estratégias não devem considerar somente o digital ou somente o tradicional – ambos devem fazer parte do planejamento, em função das características do público-alvo e objetivos da organização.

Você fala muito sobre comunicação nas redes sociais, porém, em sua opinião, qual é o peso exato de impacto das mídias convencionais ao púbico? Existe uma necessidade urgente de mudança de mensagem?

O impacto das mídias sociais ou convencionais no público vai depender das características de cada público. Quem dita o tipo de mídia que deve ser usado no marketing é justamente o público-alvo: que mídias eles usam, como, quando? Um mesmo objetivo de marketing (por exemplo, venda de smartphones), pode resultar em um mix de mídia completamente diferente para públicos diferentes, que usam mídias distintas.

Mesmo para ações em mídias sociais, qual plataforma deve ser usada em cada caso – Twitter, Facebook, LinkedIn, Youtube, Foursquare, Pinterest, Google+, etc – vai depender das características do público-alvo: onde eles estão e como se comportam.

Dessa forma, a mudança da mensagem e de mídia deve acontecer conforme o público muda.  Portanto, em alguns casos, a necessidade de mudança é urgente, porque o público já mudou e, em outros casos, não, pois os públicos ainda continuam usando predominantemente mídias convencionais.

Grandes empresas e marcas sólidas, passaram por “erros” de marketing como o case da “new Coca”. Hoje, qual é a necessidade principal do marketing brasileiro?

Todos os direitos reservados a Martha GabrielAcredito que a necessidade principal do marketing brasileiro ou de qualquer lugar do mundo é entender e conhecer muito bem o seu público, incluindo, principalmente os seus valores.

No passado, antes da era digital, as marcas conseguiam construir o seu posicionamento de forma unidirecional por meio das mídias de massa. Hoje, isso se torna cada vez mais difícil, pois o significado das marcas é construído pelo público em função da conexão e velocidade das mídias sociais. Some-se a isso a explosão de conteúdo online que aumenta consideravelmente o ruído.

Nesse ambiente, as pessoas passam por um processo de sobrecarga cognitiva e diminuem a atenção disponível para tudo. Dessa forma, para chamar a atenção das pessoas, uma das formas mais eficientes é por meio dos seus valores – eles funcionam como imãs de atenção e de coração.

No entanto, esses valores devem ser autênticos na organização e devem estar incorporados no seu DNA, justamente porque se tornam o elo principal entre marca e consumidor e, qualquer dissonância quebra esse elo. Nesse contexto a transparência é essencial e é interessante observar que, quanto mais tecnologia existe, mais humanos e éticos precisamos nos tornar.

Para quem quer viver de marketing, qual é a dica que você transmite em meio a constantes mudanças de cenários e tecnologias?

Estudar e experimentar sempre. Ambientes que mudam rápido e constantemente requerem aprendizado continuo pensamento crítico e criatividade. Os problemas e oportunidades a cada instante são inéditos. Assim, o estudo é a caixa de ferramentas que vamos armazenando e a experimentação criativa com pensamento crítico vai determinar que ferramentas usar em cada caso.

Você acredita que para uma empresa angariar sucesso e solidez, o marketing deve estar na mente dos colaboradores, deste a recepção até a produção, e não somente fechado ao departamento em questão?

Marketing é uma ciência de troca. Precisamos entender o consumidor para podermos oferecer o melhor produto/serviço em troca. Assim, para que o marketing funcione todos os colaboradores devem ter o consumidor/cliente como foco do seu trabalho.  Se um colaborador falhar no processo de marketing, o ciclo todo fica comprometido.

Eu comparo isso com o nosso corpo humano – se estivermos com uma bolha no pé ou com dor de cabeça, o nosso corpo inteiro para de funcionar adequadamente. Portanto, para que o corpo (empresa) interaja com o mundo (mercado) eficientemente, os órgãos (colaboradores) devem estar todos colaborando e funcionando adequadamente para cada ação que estivermos praticando.

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