SERÁ QUE VALE TUDO PARA SUBIR NA CARREIRA?

Naísa Modesto

Tim Maia já cantava: “Vale, vale tudo / Vale o que vier, vale o que quiser…” Parece mesmo que conquistar um lugar ao sol no mercado de trabalho não é suficiente para muitos profissionais. Eles querem brilhar e, alguns deles, a qualquer preço. Mas será que o mercado está cada vez mais competitivo ou está mais cruel?

O consultor Dr. Jô Furlan dá uma terceira opção: “O mercado exige que a gente se reinvente a cada dia”. Ele lembra que, há algum tempo, ter um curso superior era uma exigência. Depois, a pós-graduação tornou-se um diferencial, mas foi substituída pelo MBA – e hoje vemos até profissionais cursando mestrado para pleitear certas vagas.

Então, o que as empresas esperam dos profissionais? De modo geral, que você mostre a que veio! Furlan explica: “Para a empresa, o que importa são os resultados, e isso passa a ser, de fato, um pouco cruel. Mas não é uma questão de competição e crueldade apenas, é uma questão de necessidade. Hoje, ser bom não basta!”.

Luísa* já pôde sentir na pele como esta competição profissional pode ser desmedida. Ela trabalha há alguns anos em uma empresa de consultoria e, quando soube da abertura de uma vaga, fez logo a indicação de uma colega da faculdade. Luísa fez o cartaz da colega e a profissional em questão foi logo contratada. “No começo, só faltava ela beijar meus pés, agradecendo a oportunidade. Quando fez amizade e ficou mais próxima de um diretor, passou a me tratar com certa indiferença”, conta. Certo tempo depois, a nova contratada começou a fazer insinuações sobre um suposto relacionamento entre o tal diretor e uma outra funcionária e comentava sobre suas suspeitas com Luísa, que evitava as fofocas a todo custo.

A história piorou: a colega de Luísa chamou o diretor para uma conversa e resolveu alertá-lo sobre os boatos que corriam na empresa sobre o suposto relacionamento dele com uma colaboradora. E disse, inclusive, que Luísa era uma das pessoas que estavam disseminando a idéia. “Depois disso, ela virou a pessoa de confiança do diretor e ela acreditava que isso era o seu maior mérito”. Graças ao tempo de casa de Luísa e seu desempenho profissional, a história não foi além, mas causou grande constrangimento entre os envolvidos e uma grande decepção para ela.

Essa história ilustra bastante a questão da competição em um ambiente de trabalho, mas a situação deve ser outra, como explica Furlan: “A maior competição deve ser feita conosco. Às vezes, o meu melhor não é o suficiente e também precisamos entender isso.” Como acontece com qualquer pessoa, em certas oportunidades simplesmente não conseguimos dar nosso melhor: “O nosso diferencial é a média: quanto mais alta, maior diferencial temos. Vamos buscando, desde que tenhamos compromisso de fazer melhor.”

Mas nem sempre a ameaça vem de um colega. Surpreendentemente, seu maior adversário na empresa pode ser o gestor. Foi o que aconteceu com Fernando*. Ele trabalhava com Tecnologia da Informação em uma empresa renomada e tinha boas expectativas de crescimento na organização. “Fiquei surpreso quando, depois de um bom tempo de trabalho, me promoveram para ocupar uma posição melhor, com direito a aumento e tudo mais. Sabe o que aconteceu? Nada, absolutamente nada. Ocupei o novo cargo, mas não recebi nenhum benefício.”

Depois de mais um período, Fernando foi promovido novamente para uma área que ele realmente se identificava – e mais uma vez criou expectativas com relação ao seu futuro. Mas nenhuma mudança de fato aconteceu. Foi quando ele soube do que ocorria nos bastidores: “O meu superior fazia a minha caveira pelas minhas costas e na minha frente tinha o prazer de deixar bem claro que ele era quem sabia de tudo e que eu não era ninguém.”

Esse gestor ainda o encaminhou para um outro departamento, no qual Fernando não tinha experiência – fato que era do conhecimento do superior. Mesmo com os esforços do profissional, cerca de seis meses depois ele foi informado de que a vaga não havia sido aprovada pela diretoria e que ele não havia passado pelo tempo de experiência. “Fui demitido depois de ser empurrado com a barriga por diversos gestores e ter passado por diversos departamentos”, lembra.

O que deixa Fernando decepcionado nessa história é a justificativa usada para dispensá-lo: a vaga que supostamente não havia sido aprovada estava ocupada há certo tempo e ele já acumulava dois anos de experiência na empresa. “Tenho certeza que me puxaram o tapete!”, diz.

Se para os personagens principais dessas histórias o desfecho das disputas não foi nada agradável, os coadjuvantes não tiveram necessariamente um final ruim, mas isso não significa que a melhor saída é neutralizar seus concorrentes. “Vale a pena subir a qualquer preço? Não sei. Você está disposto a pagar o preço? Quem sobe pela espada, cai pela espada”, comenta Furlan.

A melhor saída ainda é focar-se no seu trabalho e desenvolvimento, contornando adversidades e mantendo-se fiel aos seus valores e princípios. “Você vai estabelecendo seus limites e decide se aceita ou não o que é imposto. Você pode dizer: não, não quero porque não é ético.”

Isso vale até mesmo para o momento em que as coisas não derem muito certo, como um caso de demissão, por exemplo. Furlan explica que se você demonstra cuidado e apreço pelas pessoas durante sua carreira, poderá contar com o apoio delas numa próxima oportunidade. “Quem sobre construindo degraus e pessoas, constrói uma coisa sólida. Talvez alguém puxe o tapete desse profissional, mas ele vai ter alguém para segurá-lo embaixo. Às vezes, nem no mesmo lugar, mas em outro”, conclui Furlan.

(*) Os personagens desta matéria tiveram seus nomes trocados para preservar a identidade dos profissionais.

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