Sobre Dalai Lama e nós, nas empresas

Assim como muitos de vocês, eu já tinha ouvido falar do Dalai Lama. Há pouco tempo, no entanto, me interessei de verdade por ele e, querendo também ampliar meus limitados conhecimentos de geopolítica, vi um pouco da história. Dalai Lama, além de líder espiritual budista, é um exilado político que mora na India. Continua lutando pela independência de seu país, o Tibet, que pertence à China. A China não permite hoje que nenhum país, nem os EUA, interfira nesta tentativa do Dalai Lama de promover a independência do Tibet. E quem se atreve a bater de frente com a China e seu enorme poder econômico? Só mesmo o Dalai Lama. O que mais me chamou a atenção foi como o Dalai Lama bate de frente, e o que isso tem a ver com a gente, nas empresas.

Ele só fala de conciliação e paz, não incita nenhum tipo de violência, nem a verbal. Em tempos de arroubos emocionais no Congresso e Senado do nosso país, é um alento ver que é possível lutar com sabedoria e compaixão, até mesmo contra a China.  Seria possível lutarmos assim nas nossas minúsculas batalhas diárias?

Dalai Lama sempre diz que, a curto prazo, a violência pode sim conquistar algo. Mas o que foi conquistado pode ser destruído rapidamente, e ele quer algo sustentável, uma solução duradoura e pacífica.  Em nosso mundinho corporativo, nem sempre pensamos a médio prazo, queremos tudo e hoje. Mas invariavelmente pagamos um preço alto no dia seguinte, ou nos anos seguintes.  Uma pequena maledicência aqui para neutralizar quem parece ser melhor que nós nos faz sentir seguros hoje, e, se repetirmos a ação, pode até ser que consigamos a promoção antes. Mas as conquistas sustentáveis só vêm como fruto da colaboração, do conhecimento, da disciplina e do bom humor.

Gosto de saber que Dalai Lama usa aquele manto amarelo e vermelho para simbolizar, respectivamente, a sabedoria e a compaixão por todos os seres. Compaixão por todos, não só pelos iguais, pelos que têm a mesma religião, pelos que pensam como ele.  Interessante como ele diferencia perdão e compaixão.  Quando perdoamos, nos colocamos acima da pessoa perdoada, nos sentimos superiores e infalíveis, capazes de perdoar aquele ser que erra.  Parece bom, mas todos nós, que já perdoamos alguém e nos sentimos superiores por isso, sabemos que é mais uma armadilha da vaidade e da arrogância.   A compaixão é a compreensão profunda de que todos nós somos falíveis, cometemos os mesmos erros ou até outros piores que aqueles que julgamos.  E, por isso, está tudo certo, é só uma questão de tempo – ele erra, eu erro, nós todos erramos.  Quem somos nós para julgar, condenar ou perdoar.  Está tudo certo. Mundo lindo este que o Dalai Lama prega, né?

Vale tentar no nosso mundinho. Tentar realizar o exercício diário de nos percebermos cheios de falhas.  E, por isso, contribuir sem julgar, ensinar sem “se achar”, pedir ajuda sem se constranger, pedir desculpas sem se considerar incompetente, corrigir sem destruir o outro.

Mas vamos voltar ao manto vermelho e amarelo.  Não é só vermelho, porque ele diz que se você tem só compaixão, pode virar um bobão (ok, esta rima pobre é minha e não dele).

Precisamos ter, junto com a compaixão, a sabedoria, simbolizada pela cor amarela. Sabedoria sem compaixão nos deixa arrogantes, achando que descobrimos o “verdadeiro caminho”, o que quer que isso signifique. Saber o que se quer, lutar pacificamente pelos ideais, ideias e sonhos.

Sem se alienar, apesar dos enormes esforços da sociedade para nos encantar e viciar em ida a shoppings, caça a Pokémons e dez séries simultâneas no Netflix.  Tudo assim mesmo, em excesso, como prega a regra básica do consumismo. Um pouquinho pode ser tão bom! Mas o excesso, quando estamos viciados e nem percebemos, nos tira o tempo precioso para conquistas e contatos que nos levam à felicidade verdadeira e sustentável.  E, quando estamos viciados, nem prazer temos, fazemos no automático. Que hábito nocivo podemos tentar diminuir, dando espaço para hábitos saudáveis e sustentáveis? Que pensamentos? Que omissões? Que ações? Reações?

Gosto deste caminho do meio pregado por ele.  Nada a rejeitar! Que venham os Pokémons, as séries, as redes sociais e os shoppings! Mas que venham também as meditações, as reflexões sobre nosso comportamento, a disciplina, o querer ser melhor,  a descoberta de prazeres não materiais.

Que em nossas empresas tenhamos sabedoria e compaixão.  E que sejamos guerreiros, lutando sem nos acomodar pelo que acreditamos – mas sempre em paz.

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