Liderar é também assumir e acolher as próprias imperfeições

Colunista: Heloísa CapelasVia de regra, todo ser humano tem medo – principalmente da rejeição. Você já parou para pensar em como esse sentimento atrapalha a liderança? Confira a seguir.

O debate sobre liderança ainda hoje é permeado por falsas crenças. Existem, por exemplo, afirmações de que os verdadeiros líderes são destemidos, capazes de decisões assertivas baseadas em algum tipo de bravura ou coragem exemplar. Também associam liderança à extroversão e, ainda, há o questionamento sobre que grandes líderes já nascem prontos. Bem, pela minha experiência e visão, essas afirmações são a generalização de uma ideia concebida que se tem do que é ou sobre como deve ser um líder, mas não correspondem a uma verdade absoluta – ou sequer positiva.

Existem, evidentemente, pessoas com mais facilidade para liderar. Assim como existem aquelas que assimilam novos idiomas rapidamente, que lidam muito bem com números ou que são excelentes na escrita. Cada indivíduo tem suas próprias habilidades e diferenciais, o que, de forma alguma, o impede de aprender e desenvolver novas aptidões. É tudo uma questão de prática, de treino.

O mesmo vale para este aspecto comportamental, relacionado à extroversão, muito comumente associado à liderança. Reforço: dizer que um líder precisa ser extrovertido é um mito. O que ele realmente necessita é ser comunicativo. E a comunicação também pode ser aprendida, modificada, transformada para melhor.

Falemos, então, sobre o mito do medo. Afinal, o medo está sempre presente na vida de todos nós – inclusive dos líderes ou daqueles que almejam a liderança. Ainda que sejam rotulados ou que se autointitulem corajosos, todos os gestores carregam seus próprios temores, mesmo porque o medo faz parte da essência humana. Ou seja: é impossível NÃO sentir medo, mas é possível acolhê-lo e aceitá-lo como uma parte indispensável de nossa natureza.

Por isso e para isso, sempre falo sobre a importância de avaliar quais são nossos reais medos, bem como entender de onde eles vieram. Uma dica: salvo raras exceções, a maior parte das pessoas sente mesmo é pavor de ser rejeitada. O medo do abandono e da rejeição é bem mais comum do que se pode imaginar, mas, para muitos, aparece e acontece de forma inconsciente. Tornar o medo consciente é uma forma poderosa de impedir que ele nos faça paralisar, atacar ou recuar em nossa trajetória.

Medo de rejeição versus liderança

Você pode estar se questionando: “mas como o medo da rejeição influencia a liderança?”. Bem, vamos do começo. Via de regra, esse temor tem origem na infância. Foi lá, com nossos pais e cuidadores, que começamos a dar significado à rejeição e ao abandono. Sempre que fizemos alguma coisa “errada” e fomos repreendidos por esse comportamento, nutrimos o profundo desejo de sermos perfeitos. Afinal, se alcançássemos a perfeição, jamais levaríamos broncas. E, consequentemente, jamais nos sentiríamos humilhados, desamparados ou não amados. Em outras palavras, queríamos ser perfeitos para que pudéssemos receber o amor incondicional dos nossos familiares em vez de críticas.

Carregamos essa crença para a fase adulta, consciente ou inconscientemente, ignorando que a perfeição não nos pertence. O ser humano é dual, composto pelo bem e pelo mal, pelo claro e pelo escuro. Porém, se continuamos apegados ao nosso ideário infantil, continuamos também a alimentar o medo da nossa imperfeição e o medo de que nossas falhas sejam descobertas por aqueles que nos cercam. Aqui está a característica decisiva que diferencia um líder de um não líder: o temor de ser visto, rotulado ou apontado como incapaz de exercer tal função ou ocupar tal posto, seja pelos outros, seja por si mesmo ou ainda por ambos.

Almejar a perfeição tira, do líder, sua verdadeira capacidade de motivar, de criar empatia, de demonstrar compaixão e até mesmo de trabalhar em equipe. Por outro lado, o líder que reconhece, em sua própria história, a origem dos seus medos, perde o medo de se expor e de ter suas imperfeições “descobertas” – o que é, sim, uma característica fundamental à liderança.

Por isso mesmo, se você quer treinar a liderança, se quer aprender a ser líder, o primeiro passo é olhar para o seu passado. Reveja a sua trajetória, resgate o papel dos seus pais e cuidadores na sua infância. E, a partir dessa análise, procure entender: o que lhe foi ensinado sobre liderança? E sobre liderados? Na sua vida, o que significa “ser autoritário”? E autoritarismo? Como foi que o medo de rejeição nasceu em você? Em quais circunstâncias? E o que você tem feito com e sobre esse medo?

Aproprie-se da sua história. E, lembre-se: assim como você aprendeu tudo isso, você também pode desaprender para criar novas maneiras de lidar com as críticas, de criticar, de se expor, de se comunicar e, por consequência, de liderar.

Por fim, reforço: o medo compõe sua humanidade, faz parte de você, e, por isso, a maior prova de coragem que você pode demonstrar para si mesmo é assumi-lo e acolhê-lo. Diante de um desafio, simplesmente vá. E vá com medo mesmo.

Heloísa Capelas é considerada uma das maiores especialistas do país em Autoconhecimento e Inteligência Comportamental. Há cerca de 30 anos atua com desenvolvimento humano e aplica cursos com a metodologia Hoffman, considerada por Harvard um dos trabalhos mais eficazes de mudança de paradigmas para líderes. Conferencista nacional e internacional, é autora do livro “O Mapa da Felicidade” e coautora de mais cinco livros sobre Gestão de Pessoas, Coaching e Inteligência feminina. Diretora do Centro Hoffman, é Coach, Master Practitioner em PNL, Pós-Graduada em RH e Graduada em Assistência Social. Para falar com a especialista, escreva para heloisa@centrohoffman.com.br. Visite também: www.centrohoffman.com.br e www.heloisacapelas.com.br.

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