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22/06/2012 - Daniel Maudonnet: música nas organizações

Autor: Caio Lauer

Daniel MaudonnetDesde os 16 anos, Daniel Maudonnet já tinha a certeza de que a música regeria sua vida. Compositor, arranjador, pianista e educador, o músico tem sólida formação acadêmica e uma respeitada carreira com trabalhos realizados com cantores consagrados como Moraes Moreira.

Seu interesse e relação com o meio corporativo tiveram início nos Estados Unidos, onde cursou música pela Berklee College of Music e aprendeu muito sobre business e gestão de carreira. Retornando ao Brasil, surgiu a ideia do Jazz Concept, um conceito de apresentação para grandes empresas que fornece conhecimentos básicos sobre música e específicos sobre jazz, relacionando a gestão das pessoas no ambiente de trabalho com um quarteto musical.

Na entrevista, Maudonnet conta sobre sua carreira e o que a música pode ensinar ao mundo corporativo.

Boa leitura!

Quando percebeu que a música era o queria para sua vida?

Aos 16 anos defini isto muito bem e não foi nada fácil, pois é uma carreira pouco convencional. Fui buscar uma graduação na área e me formei pela Faculdade de Música Carlos Gomes. Logo após, consegui uma bolsa de estudos e fui me aperfeiçoar na Berklee College of Music, nos EUA. Lá, tive uma boa visão de business e descobri que músico é um profissional liberal, que como em qualquer outra área, é um empreendedor e precisa ter um bom desempenho em seus projetos. Sempre tive esta perspectiva e isso me ajudou a formar uma carreira sólida.

A carreira de um músico depende de muita dedicação e amor pelo que faz. O que ela pode ensinar às empresas?

A carreira do músico está muito mais ligada a conceitos modernos do que as pessoas imaginam. Uma profissão tida como pós-moderna é aquela em que o profissional atua com projetos pontuais e empreitadas – as empresas estão cada vez mais adotando este sistema de contratação. A vida do músico sempre foi assim e ela pode ensinar ao meio corporativo que, mantendo uma rede forte de relacionamentos, sempre vão aparecer novos trabalhos.

Quando enxergou a oportunidade de linkar o jazz com o universo corporativo?

Sempre gostei de lecionar (atualmente leciona na Faculdade Internacional Souza Lima) – a atividade de atuar como professor me dá muito prazer. Acabo criando vínculos com os alunos. Em certa oportunidade, em 2005, conheci um diretor de uma multinacional da indústria farmacêutica, e conversando, ele comentou sobre as dificuldades que tinha em seu trabalho com gestão de pessoas, motivação e valorização do capital humano. Na conversa, fui comentando como trabalhamos esta questão dentro de um grupo de jazz. Ele achou interessante e pediu para que eu apresentasse a ideia diante de um grupo de vendedores. Deu super certo e não parei mais.

Como desenvolveu a metodologia da palestra corporativa? Você já tinha conhecimento de como funciona o ambiente empresarial?

Existe uma literatura muito grande do jazz que fala sobre trabalho em equipe, claro que com uma linguagem bem diferente da empresarial. Precisei ir atrás apenas do vocabulário necessário para me reportar aos profissionais porque, no fundo, estamos falando de comunicação entre as pessoas, relacionamento e excelência no trabalho.

Para me aprimorar, fui estudar sobre o universo corporativo, realizei cursos e li muito. Aprendi na prática também, tomando como base as dificuldades das organizações por onde atuava. Sempre foi uma troca muito grande.

Houve muita desconfiança do método por parte das empresas no início?

Tive sorte e entrei em um momento propício, quando as empresas já estavam começando a incorporar treinamentos com temáticas ligadas ao esporte e às artes. Apesar de não ser um ramo tão explorado, as pessoas gostam e tem interesse de ver, por meio de metáforas, como são as soluções de outros universos. A única resistência que sofri foi em relação a como a música poderia ser aplicada em um ambiente tão hierárquico e com organogramas bem definidos.

Quais resultados obtêm as empresas que apostam no Jazz Concept como ferramenta de treinamento de equipes?

As pessoas passam a entender realmente o que é fazer parte de uma equipe. Levo um quarteto de jazz para tocar, com piano, contrabaixo, saxofone e bateria. Desenvolvemos dinâmicas, mostrando como se constrói um projeto – neste caso, tocamos uma música pop do momento no formato “jazzístico”. Com isso, vou ilustrando todo o processo de criação, divisão de funções, explicando o que cada instrumento faz, e a sinergia entre o grupo.

Como funciona na prática a apresentação?

O contrabaixo é um instrumento de suporte na música. Porém, não possui muita exposição. Até brinco que as pessoas sabem o nome de um músico de uma banda, mas nunca do contrabaixista. Na verdade, ele é a peça fundamental do conjunto, o que dá o “molho” para a banda. Ele é a base para funcionar toda a engrenagem. Isso existe muito nas equipes das empresas e faço esta analogia.

Outro exemplo é a criatividade. As pessoas têm uma concepção romântica de que criar é como um raio que cai em suas cabeças e, de repente, surge uma nova ideia. Isso está muito longe da realidade e se insere na romantização das artes. Essa desmistificação é extremamente importante para as pessoas pensarem que nenhum é melhor do que a outro de graça. Quero dizer, por exemplo, que não nasci com o dom divino de tocar piano. Para qualquer habilidade, é necessário desenvolvimento e dedicação. A criatividade em um quarteto de jazz é ter uma voz única no conjunto, sempre com uma performance inédita e com certo improviso – é sempre buscar uma forma nova de interpretação. Este é o mote da palestra: a criação espontânea por meio de execuções inéditas.

Para atingir isto, é essencial ter conhecimento técnico e sintonia entre a equipe. Quando vamos a um show musical, não comentamos algo como “o guitarrista tocou muito bem, mas a banda tocou muito mal”. Na verdade, a conjunto acaba não agradando. É a mesma coisa em uma empresa, pois quando temos algum problema, ligamos para uma central de callcenter e somos mal atendidos, não dizemos que foi o atendente que não fez um bom trabalho e, sim, a organização.

Existem segmentos profissionais que se adaptam melhor à analogia com o jazz?

Acho que tenho muita sorte, pois minha apresentação se enquadra em qualquer situação. Já apliquei o Jaz Concept em empresas públicas e privadas das mais diversas áreas. Acho que a música tem o diferencial de ser a arte que se sobrepõe a todas as outras. Ela tem maior penetração na sociedade do que a literatura, pintura e escultura, por exemplo. Isso é uma vantagem na hora de realizar um trabalho em uma companhia, pois mesmo pessoas que não conhecem e não se identificam com o jazz, gostam de música.

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