O Portal Carreira & Sucesso é uma publicação digital da Catho Online. Aqui você encontra informações relacionadas ao mercado de trabalho, que irão auxiliá-lo em seu desenvolvimento profissional.

12/01/2012 - Luciano Pires: combate à mediocridade

Autor: Caio Lauer

Colunista: Luciano PiresJornalista, cartunista, palestrante, executivo, escritor e, como ele mesmo diz, um incansável batalhador pelo “desemburrecimento” do Brasil. Escritor da obra “O Meu Everest”, que descreve sua aventura de caminhar até o campo base do Everest, no Nepal, em abril de 2001, ele fala como esta experiência mudou sua visão de vida e modo de atuar profissionalmente.

Luciano Pires, colunista do Carreira & Sucesso, nos conta sobre suas multifunções nos mais de 30 anos de trajetória profissional. Transformou-se também em um dos grandes palestrantes brasileiros, que marca suas apresentações pelo bom humor, ideias provocativas e uso extensivo dos recursos multimídia.

Boa Leitura!

Você é graduado em Comunicação. O início da sua carreira profissional foi como jornalista ou houve algo antes disso?

Comecei a trabalhar aos 15 anos de idade, como revisor no Diário de Bauru, interior de São Paulo. Aos 18 fui tradutor da indústria de cadernos Tilibra.Considero esta a primeira etapa profissional da minha vida, jovem, quase estagiário, aprendendo a “se virar” no ambiente profissional.

Aos 19 anos, vim para a capital, São Paulo, para cursar Comunicação Visual no Mackenzie, onde me formei em 1977. De 1978 a 1982 estive à frente de um estúdio de arte, que depois foi ampliado para uma agência de Propaganda. Foi a segunda etapa profissional de minha vida: o jovem profissional inexperiente entrando com a cara e a coragem num empreendimento próprio e experimentando as dificuldades do empreendedor brasileiro.

Após o casamento, pressionado pela necessidade de estabilidade, fui buscar um emprego formal. E por 26 anos, entre 1982 e 2008, fui executivo de uma multinacional fabricante de autopeças, começando como Desenhista de Catálogos e chegando em 1996 a Diretor de Marketing e Comunicação Corporativa, função que desempenhei por 12 anos. Foi uma bela carreira, construída cuidadosamente e que teria tudo para dar errado, pois eu era um profissional de comunicação, dentro de uma empresa de manufatura de autopeças, fundada e dirigida por engenheiros, onde o marketing tinha pouca ou nenhuma importância. Essa foi a terceira etapa profissional de minha vida: o jovem profissional crescendo e amadurecendo dentro do ambiente corporativo, experimentando a liderança de equipes, a convivência com culturas diferentes e o prestígio de um cargo importante e com grande visibilidade.

Desenvolver carreira num terreno hostil, à função que eu desempenhava, foi uma grande escola que me preparou para a quarta etapa profissional de minha vida: a volta ao empreendimento próprio, opção que abracei em 2008, quando mergulhei de cabeça – aos 52 anos de idade – em meu negócio atual: o Café Brasil Editorial.

Você trabalhou mais de 20 anos em uma grande multinacional. De que maneira esta experiência influenciou em suas palestras?

Trabalhei na Dana Indústrias por 26 anos, 12 dos quais na função de Diretor. A experiência no mundo corporativo foi essencial para me dar uma visão abrangente do comportamento das pessoas no mundo profissional, da importância da liderança, da essência do foco nos resultados e, especialmente, da disciplina exigida de quem está à frente de equipes em grandes empresas. Mas minha vocação para cartunista também me deu uma visão bem humorada e irreverente dos conflitos profissionais. Minhas palestras estão repletas desta visão irreverente ao abordar o abismo que existe entre o discurso e prática, a hipocrisia do dia a dia corporativo, as consequências da falta de coragem e das lideranças negativas. Minhas palestras são reflexões sobre tudo aquilo que aprendi na prática.

As temáticas das palestras variam muito de acordo com a demanda de cada empresa?

Tenho uma relação de temas já prontos, sobre os quais costumo trabalhar adaptando às necessidades das empresas. Não raro, parto de um material que já tenho desenvolvido para construir uma nova apresentação que esteja dentro dos objetivos dos clientes.

Sua viagem ao Everest pode ser considerada um divisor de águas da sua vida, focada como executivo, para a busca de expansão de conhecimento e de ideias?

Completamente. Eu costumo dizer que minha viagem ao Everest foi uma “pausa para um cafezão”, um momento de profunda reflexão sobre minha vida, meus sonhos, a forma como eu vinha conduzindo e o que eu esperava para o futuro. O “Meu Everest” me deu um novo norte e ajudou a chegar até aqui.

Como líder, durante anos em uma multinacional, qual sua opinião sobre os sistemas de gestão das empresas brasileiras? Ainda falta muita “profissionalização”?

Depende do que é considerado como “profissionalização”. Se for “fazer as coisas certas, na hora certa, do jeito certo”, eu diria que estamos lá, podemos nos igualar a qualquer país de primeiro mundo. Basta ter em mãos uma descrição do que é o “certo”.

Mas, se for “fazer as coisas necessárias, na hora necessária, do jeito necessário”, eu diria que estamos muito longe. Fazer o necessário exige uma grande capacidade de julgamento e tomada de decisão e aí está o grande pecado brasileiro. Não treinamos as pessoas nesses atributos, que vão muito além da eficiência operacional. Capacidade de julgamento e tomada de decisão está no âmbito da cultura, dos valores e convicções das pessoas. E aí o brasileiro está na idade da pedra.

Você possui um site, o portal Café Brasil. O que ele aborda e para qual público é destinado?

O Portal Café Brasil (www.portalcafebrasil.com.br ) foi criado para unir as pessoas interessadas em contribuir para aquilo que eu chamei um dia de “despocotização do Brasil”. É um esforço para reunir pessoas interessadas em combater o emburrecimento nacional. É por meio dele que distribuo minhas “iscas intelectuais”, fragmentos de conhecimento, de coisas que li, recebi ou escrevi, e que estimulam as pessoas a refletir sobre pequenas coisas que são importantes, mas que deixamos de lado. É no Portal Café Brasil que me tornei uma espécie de “personal trainer de fitness intelectual”. O cérebro é como um músculo, se não exercitar atrofia. O Café Brasil é onde está o estímulo para esses exercícios.

Meu público não se divide por classe econômica ou social, por gênero ou idade, nem por segmento de atuação. Meu público se divide por visão de mundo: todos os interessados a crescer – pessoal ou profissionalmente – são meu público.

Qual recado você deixa para os leitores do Carreira & Sucesso, que são profissionais em busca constante de novos conhecimentos e aprendizado?

Noventa e nove por cento dos treinamentos que vocês recebem nas empresas, estão focados em eficiência operacional. Querem que você faça cada vez melhor aquilo que você sempre fez. Nenhuma empresa está interessada em desenvolver sua visão de mundo, seu senso crítico ou sua capacidade de julgamento e tomada de decisão para a vida. Alguns líderes até estão, mas quando eles saem da empresa, levam a visão com eles. Por isso bote uma coisa na cabeça: está em suas mãos definir o que você será amanhã. É você que escolherá como vai crescer, em que corpo vai viver, em que mundo se desenvolver. Essa escolha é assustadora e a maioria das pessoas prefere viver a vida que outros designaram a elas. É possível ser feliz assim? É. Mas a vida é curta demais para ser vivida como um bovino resignado.

Leia mais sobre:

  |    |    |    |