Jeitinho brasileiro: uma benção ou maldição?

Não há como negar que, aqui no Brasil, ao longo da nossa evolução, desenvolvemos uma habilidade de improvisar soluções para contornar dificuldades e superar os obstáculos de forma única. Nós, brasileiros, somos os MacGyvers do mundo, sendo capazes de consertar ou criar qualquer coisa a partir de um chiclete mascado e um clipe de papel.

Toda esta capacidade criativa realmente nos diferencia positivamente do resto do mundo. Somos reconhecidos mundialmente pelo nosso desenvolvimento e contribuição cultural. Alguns artistas plásticos (Beatriz Milhazes, Vik Muniz e Romero Brito), pintores (Tarsila do Amaral, Candido Portinari e Di Cavalcanti), músicos (Tom Jobim, João Gilberto e Sepultura)  e atores (Sônia Braga, Alice Braga e Wagner Moura) se tornaram referências mundiais em suas áreas de atuação.

Até mesmo o futebol brasileiro, capaz de produzir os melhores jogadores e se reinventar constantemente,  pode ser um bom exemplo das invenções improvisadas que nos tornam únicos no mundo. Porém, nada reflete melhor como nosso “jeitinho brasileiro” sendo aplicado positivamente como a elaboração e apresentação da maior festa do mundo, o Carnaval. Neste pequeno período, o país recebe milhões de turistas, que movimentam mais de R$ 5 bilhões em nossa economia!

Mas, obviamente, nem tudo é festa e esse é o problema intrínseco na cabeça do brasileiro. Achamos que o “jeitinho brasileiro” só possui aspectos positivos e esquecemos dos problemas que esta capacidade criativa é capaz de produzir.

A corrupção, presente em diversos comportamentos do brasileiro (seja ao furar uma fila, parar o carro em fila dupla, estacionar em vaga de deficiente, sentar no lugar destinado a idosos, fazer “gato” na rede elétrica, alterar a tv a cabo, sonegar impostos, cobrar propina ou qualquer outra forma de tirar vantagem indevida), é fruto deste jeitinho e afeta a vida de todos que estão ao redor. Quando uma pessoa se aproveita indevidamente de uma situação, muitas outras estão sofrendo as consequências.

Profissionalmente, não temos trabalhadores melhores, capazes de auxiliarem as suas empresas e, consequentemente, a economia do país, devido a estes hábitos nocivos. Empresas maduras, com políticas sérias para condução dos seus negócios, sofrem com profissionais que insistem em burlar os procedimentos padrões, os códigos de ética ou as leis locais/internacionais. Em busca de benefício próprio, apresentam resultados maquiados em suas áreas, tiram proveito financeiro das negociações ou tentam “ganhar clientes” com “presentes”.

Muitos candidatos não conseguem bons empregos porque apresentam, inocentemente, a sua disposição para fazer o que for preciso para crescer (mesmo que tenham que burlar as regras) nos processos seletivos. E, obviamente, nenhuma empresa madura quer colocar em risco a sua credibilidade contratando um profissional com este perfil.

Outros profissionais, motivados pela capacidade de ganhar dinheiro com os seus serviços ou produtos criativos, entram para o universo do empreendedorismo criando empresas e negócios que morrem rapidamente ou que se sustentam ao custo daquelas sérias que pagam os seus compromissos em dia.

Enfim, o “jeitinho brasileiro” está aí e vai continuar. Se você for capaz de aplicá-lo com maturidade e racionalizar o que deve ser feito, com certeza poderá ter resultados fantásticos em sua vida profissional. Agora, se continuar a aplicá-lo automaticamente, sem pensar, com certeza, estará contribuindo para a construção de uma vida profissional medíocre (afinal, todo erro é descoberto e mais cedo ou mais tarde sofre às consequências) e por um país com sérias dificuldades de ser reconhecido como uma potência.

 

_

Sobre o autor
Allan Lopes é  Coaching Sistêmico, membro da Internacional Coach Federation, Master Practitioner em PNL e especialista em gestão de performance e em processos de mentoring e coaching aplicados ao ambiente corporativo. Sócio da Soar Desenvolvimento Humano e responsável pela área de Consultoria em Recursos Humanos.

No trabalho, OUVIR pode ser mais importante do que FALAR

Empreender possui diversos formatos. Encontre o seu!

4 competências de atleta que os recrutadores buscam em candidatos