A vida sempre segue seu fluxo no caminho certo

Qualquer que seja nosso status social, condição profissional e pessoal, estamos presos às leis, ainda desconhecidas, da vida. Sejam elas quais forem, tudo que sabemos é que essas leis nos movem em direção à solidariedade, esperança e amor por nós mesmos e pelo outro

Colunista: Heloísa CapelasEra uma vez um casal que havia construído uma família bonita, organizada e satisfeita. À frente de uma empresa de grande porte, marido e esposa tinham bons motivos para se orgulhar, afinal, levavam dias felizes e podiam oferecer aos filhos uma vida saudável, repleta de sonhos e possibilidades.

Tudo ia muito bem até que, um dia, o filho caçula, então com dez anos, caiu acidentalmente da rede em que brincava na fazenda da família. A queda provocou traumatismo craniano e, como resultado, o pequeno permaneceu em coma por mais de 15 dias até acordar e ser diagnosticado com paralisia cerebral.

O menino – pensava a família – tinha um caminho brilhante pela frente. Graças ao trabalho árduo, pai e mãe teriam condições financeiras para investir o que fosse preciso em seu futuro. Poderia se tornar cientista, jogador de futebol ou até mesmo um famoso artista. No entanto, a partir daquele momento, tudo isso parecia desfeito: a frágil criança estava presa a um corpo que, agora, respondia com dificuldade para andar, comer, falar e, principalmente, para pensar.

Virando a mesa

O medo, o desespero e a frustração daquele casal logo deram lugar à ansiedade. Diante da nova situação que se fez, ambos começaram a procurar por respostas e soluções, mas não demoraram a descobrir que muito pouco se sabia (e se fazia) por pessoas que enfrentavam dificuldades como aquela com a qual estavam lidando. Ainda assim, em vez de fraquejar, esta família reuniu forças para alterar a rota e modificar os próprios sonhos.

A partir do momento em que começaram a viver esta nova realidade, pai e mãe passaram a enxergar cada dia como uma pequena conquista, uma realização feita por aquele pequeno menino que, com o passar dos anos, se transformaria num homem vitorioso.

É claro que tamanha evolução não aconteceu da noite para o dia. Ao longo do tempo, seus pais lutaram pela inclusão, pagaram profissionais que se interessavam pela cura ou pelo tratamento da doença do amado filho e, assim, preencheram seus dias com as demandas de um mundo até então desconhecido, o mundo das pessoas portadoras de necessidades especiais.

Na verdade, encarar esse mundo, provavelmente, foi a maior dificuldade encontrada pelo casal, pois, uma vez dentro dele, os pais passam a carregar sentimentos de culpa, vergonha, mágoa e impotência. Passam a viver no limite entre o normal e o anormal, entre poder e não poder, entre o adequado e o inadequado, entre ser uma pessoa comum e um ser incomum, entre o certo e o errado. Como superar tais sentimentos tão punitivos e, ainda por cima, transformá-los em algo positivo?

Dificuldades são oportunidades

O que torna este casal incomum é o fato de que ambos compreenderam que tinham mais, muito mais para contribuir e agregar ao mundo. A vida, com seu fluxo inigualável de sabedoria, propôs uma aventura a eles: o desafio de serem pais de uma pessoa portadora de necessidades especiais. A aceitação deste destino permitiu que usassem suas competências para gerar bem-estar não apenas para seu filho, como também para muitos outros filhos e filhas de tantas outras famílias que enfrentaram o mesmo destino.

Ao investir na saúde do caçula, ao oferecer todo suporte emocional e amor necessários ao seu bem-estar, aquele casal obteve avanços importantíssimos em seu quadro e pôde, assim, compartilhá-los com tantas outras pessoas. A experiência lhes trouxe a chance de trabalhar pelo bem de muitas famílias de jovens e adultos portadores de necessidades especiais, dando a elas o que, aparentemente, haviam perdido dentro deste mundo dicotômico: a dignidade e o direito de ser feliz.

O filho amado, enfim, completou 40 anos e, hoje, é motivo de orgulho constante para seus pais. Passado tanto tempo, este dedicado casal entendeu mais sobre o amor e sobre a vida do que se poderia imaginar. Juntos, aprenderam que viver significa compartilhar com outros seres humanos a dor, a luta e a gratidão por estarem vivos.

Final feliz

Embora esta não seja uma história real, não é difícil encontrar relatos muito parecidos com esta experiência que acabei de descrever. Famílias que se deparam com situações assim acabam por vivenciar momentos de surpresa, dor, frustração, impotência e, sobretudo, amor.

A humanidade que se descobre através da doença é inacreditável. A preguiça dá lugar à força de vontade. O tempo se relativiza, as expectativas se alteram. E em meio a todo esse desconforto e mudança de rumo, constroem-se histórias de superação. Ao nos conduzir para este fluxo extraordinário, a vida nos obriga a conhecer nossos talentos e a compartilhar nosso melhor com outros seres humanos.

Qualquer que seja nosso status social, condição profissional e pessoal, estamos presos às leis, ainda desconhecidas, da vida. Sejam elas quais forem, tudo que sabemos é que essas leis nos movem em direção à solidariedade, esperança e amor por nós mesmos e pelo outro. Por isso, tudo que precisamos fazer é seguir o fluxo e agradecer por todos os acontecimentos, fatos e situações imprevisíveis, reconhecendo que tudo o que nos acontece vem para o bem.

Ao criar esta consciência, nos tornamos aptos a perceber, na prática, que qualquer história pode ter um final feliz, mesmo com a morte ou com a pseudo-invalidação, desde que o amor seja capaz de permeá-la.

Heloísa Capelas é diretora do Centro Hoffman no Brasil. Especializada há mais de 20 anos no desenvolvimento do potencial humano por meio do Autoconhecimento e do aumento da Competência Emocional. Conferencista nacional e internacional, aplica cursos com a metodologia Hoffman, considerada por Harvard um dos trabalhos mais eficazes de mudança de paradigmas para líderes. Coautora dos livros “Ser + Inovador em RH”, “Ser + em Gestão de Pessoas” e “Master Coaches – Técnicas e relatos de mestres do coaching”. Para falar com a especialista, escreva para heloisa@centrohoffman.com.br. Visite também: www.heloisacapelas.com.br e www.centrohoffman.com.br.

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